Por que você faz o que faz?

Você já parou para pensar que as suas escolhas podem ter sido influenciadas intencionalmente (ou não) mesmo você jurando que fez a escolha de forma racional e por livre e espontânea vontade?


Por que você gasta dinheiro com coisas que não precisa, por que você faz escolhas das quais se arrepende em seguida, por que, por que, por quê?

Quando você se pergunta algo – pode ser sobre qualquer coisa – e tenta saber os motivos daquela resposta, você realmente sabe as razões da sua resposta ou tem alguma coisa que não se encaixa? Você já sentiu como se algo não estivesse certo mesmo estando em uma sociedade em que é extremamente difícil provar às pessoas que elas estão erradas sobre elas mesmas?

Eu li sobre um experimento muito interessante, onde psicólogos e ilusionistas se uniram para elaborar uma atividade onde as pessoas seriam enganadas pela própria mente. Este experimento consistia em mostrar à pessoa fotos de duas pessoas muito parecidas, e ela teria que escolher a que lhe fosse mais atraente. Quando a escolha era feita, o examinador abaixava as duas fotos com a face para baixo e entregava a escolhida para o participante, que poderia guardar consigo após olhar novamente a foto e relacionar os motivos que determinaram a escolha. Só que o verso das fotos se camuflava com a cor da mesa utilizada, e em algumas das vezes, o examinador entregava a foto que não foi escolhida e os participantes não percebiam. As pessoas estavam erradas sobre elas mesmas sem saber que estavam erradas sobre si mesmas, pois pontuaram as características que levaram à decisão na foto oposta à escolhida. Um dos participantes chegou a justificar uma das escolhas pelos brincos de uma das modelos da foto, mas a inicialmente escolhida não usava brincos.

E, assim, a escolha das pessoas foi manipulada sem que elas tivessem a menor noção do que ocorria bem debaixo dos seus narizes, além de ficar provado que a justificativa dada para uma determinada escolha nem sempre corresponde à verdade, podendo ser apenas palavras soltas porque algo precisa ser dito. Quando revelada a troca, muitos participantes se recusaram a acreditar no truque e ficaram muito surpresos com o resultado. Isto prova também que não somos capazes de detectar quando somos manipulados e ainda adaptamos nossas justificativas. Será que isso se estende a questões mais complexas como visões políticas e conceitos morais?

Um outro experimento provou que sim. Os participantes eram solicitados a marcar com um X em quais candidatos votariam, e o examinador colava por cima das respostas um gabarito com resultados opostos sem que a pessoa percebesse. Além da maioria não ter notado a troca, as pessoas justificaram as escolhas baseadas nas respostas trocadas. E falaram de forma convincente. Quando algum deles percebia que havia algo errado, era sempre dizendo que talvez não tivesse entendido bem a pergunta da primeira vez e pedia para mudar a resposta, mas não houve sinais de que percebiam a trapaça. Isso permite colocar a pessoa do lado oposto ao que ela pensa que acredita, para dar-lhes uma oportunidade de mudar o que elas achavam que queriam inicialmente, ou de mudar de opinião reforçando a escolha às cegas com a reflexão empregada. Loucura, né?

Desta forma, quando perguntamos a alguém o porquê de algo, ajudamos a criar uma atitude que não existia, e muitas vezes apenas busca-se o maior número de argumentos possível para explicar, pois achamos que sabemos os motivos. Fazemos isto muito rápido, tão rápido que achamos que sabemos a resposta, e por isso cometemos erros. E este é um ponto crucial na vida profissional, pois somos muito mais flexíveis do que imaginamos. Não é por ter dito algo há alguns anos que a opinião ainda permanece. Por isso, permita-se mudar de opinião.

A forma que encontramos de ter mais liberdade, é ter mais opções de escolha. E todos nós concordamos que ter liberdade é ótimo, mais ainda se pudermos ser livres para fazer qualquer tipo de escolha. Quando entramos em uma loja de roupas, de eletrônicos ou até mesmo ao médico, temos que tomar nossas próprias decisões de acordo com as opções disponíveis para uma roupa, um sapato, um computador ou um tratamento. Perguntas como “O que você quer?”, “Para que você precisa?” e “O que você prefere?” são cada vez mais utilizadas para transferir totalmente a responsabilidade para o optante. Nossa identidade agora é determinada por nossas escolhas, e muda sempre que tomamos novas decisões.

Antes, era normal entrar em uma empresa, seguir um plano de carreira e aposentar-se. Ter muitos registros de emprego na carteira de trabalho significava inconstância, falta de compromisso, falta de zelo. Hoje, é completamente normal um entrevistador estabelecer uma conversa sobre as experiências de um candidato e ver quais qualidades foram adquiridas e quais riquezas podem contribuir para o enriquecimento de uma equipe. Atualmente, podemos escolher que tipo de pessoa queremos ser. E estas escolhas são feitas todos os dias. Fazer agora ou depois? Ser agora ou depois? Responder um e-mail de trabalho no final de semana estando na beira da praia pode não mudar tanta coisa assim no âmbito profissional a ponto de valer a pena deixar de aproveitar o mar e o sol. Mas é uma escolha.

Temos percebido que está cada vez mais difícil optar por isso ou aquilo. São tantas opções que é uma tarefa cada vez mais árdua não se arrepender de uma decisão. Tendemos sempre a estarmos insatisfeitos por pensar “e se eu tivesse escolhido de outro jeito?” e não nos dedicarmos à situação atual. Quando existem muitas oportunidades, temos mais parâmetros de comparação e o sentimento de frustração é quase inevitável, mesmo quando a decisão tomada foi definitivamente a melhor. Tudo isto se trata de expectativas. Sempre vamos pensar que com tantas oportunidades, uma delas será perfeita. E quando não é tão perfeita assim, a decepção cai como uma bomba em nosso colo e começamos a lembrar das outras oportunidades que deixamos passar para escolher a atual. Ou seja, quando as expectativas sobem, a chance de o grau de satisfação despencar é muito maior.

Neste mundo onde tudo beira a perfeição, sempre achamos que algo vai ser maravilhosamente bom, sendo cada vez mais difícil ser surpreendido pelo desempenho de algo ou alguém. Nossas expectativas estão sempre no máximo, pois não estamos dispostos a aceitar menos do que achamos que merecemos ou queremos. Mas você já sabe que nem sempre o que você quer, é o que você realmente quer. Então, por que você faz o que faz?

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