Ser um peixe fora d’água não é ruim se o aquário for uma empresa

Veja bem, você já tem dúvidas do próprio potencial e ainda convive com pessoas que estão o tempo todo contribuindo para uma atmosfera massacrante que só piora a sua ansiedade. Nada saudável, certo?

O primeiro passo para aprender a se valorizar é afastar-se de pessoas competitivas, seja no âmbito pessoal ou profissional. Você já tem tantas guerras pra vencer dentro de si que não precisa ter por perto uma pessoa tentando te provar a todo momento que é melhor do que você.

Eu percebi isso já faz um tempo, e nunca me encaixei no ambiente corporativo. Nunca. Sempre cometia “sincericídio”, não tinha malícia para competir no ambiente organizacional e achava que era muito possível ter muitas amizades sinceras num ambiente competitivo de trabalho. Perdi as contas de quantas vezes ouvi que tinha potencial, era inteligente, mas que precisava amadurecer para “subir” dentro da empresa. Esse amadurecer se tratava quase sempre de abrir mão da empatia e focar somente no bem da empresa. Das vezes que tentei, fiquei ansiosa, deprimida e confusa, pois não sabia mais diferenciar contatos pessoais de contatos profissionais. Algumas pessoas estão dispostas a ficar nesse jogo e são muito bem sucedidas ou por não terem empatia ou por terem orientação e segurança emocional que eu não tive.

De qualquer forma, estou muito feliz com o ambiente informal. Não tenho que cumprir horários, muito menos acordar cedo, não pego trânsito, posso trabalhar de qualquer lugar, estabelecer a minha rotina e organizar meu tempo pra entregar os projetos nos prazos sem precisar arrancar os cabelos por causa da pressão de um chefe ou de alguém que não fez o que deveria da forma que deveria e sobrou pra você limpar a bagunça. Eu aceito os projetos. Eu aceito os deadlines. Eu tenho o controle da minha vida profissional.

Mas, claro, não existe pró sem contra. O famoso “time management” – ou gestão do tempo – que é tão cobrado nas empresas é ainda mais crucial no trabalho informal. Numa empresa você tem a chance de pedir orientação, de ser sinalizado que algo não está bem ou reportar ao seu supervisor ou gerente que por conseguinte vai transferir a atividade para outro colaborador ou dimensionar para mais pessoas te ajudarem a finalizar a tarefa. Não que isso seja bom, mas é uma forma de ainda conseguir honrar o deadline. Claro que isso pode acarretar problemas no setor e minar uma possível promoção de cargo ou salário, mas ainda assim seus proventos serão creditados no início do mês.

No mundo informal, isso significaria sacrificar um projeto ou até mesmo um cliente, pois não existe nenhum vínculo empregatício nem nada que obrigue o cliente a aceitar que você finalize o projeto, possibilitando a troca imediata e sem prévio aviso por outro freelancer que possa atingir as expectativas. Ou seja, se você não conseguir se organizar, vai ficar sem receber.

As plataformas possuem sistemas de segurança para pagamento, não havendo possibilidade de ficar sem receber. Apesar das taxas, é uma coisa muito importante a se levar em consideração sendo freelancer ou cliente, sendo o único item a ser realmente perdido o tempo, que diga-se de passagem, já é o bastante. O valor é pago assim que o projeto é iniciado e fica retido pela plataforma, sendo liberado somente após a confirmação do cliente e ainda assim demora alguns dias pro pagamento ficar efetivamente disponível para saque, possibilitando esse período de “arrependimento” ou “intercorrência”. Em caso de conflito, a plataforma fará a mediação e decidirá o que será feito. Isto posto, considero que é um ambiente seguro para investir seu precioso tempo que realmente é dinheiro, pois dá pra trabalhar por projeto e quanto antes este for finalizado, o pagamento é liberado e já pode-se iniciar um outro.

As possibilidades são muitas, e mesmo tendo que lidar com clientes difíceis algumas vezes, ainda prefiro a possibilidade de eu poder escolher com quem eu quero trabalhar e por quanto eu quero trabalhar, já que existe um sistema de avaliação tanto de freelancers quanto de clientes e a possibilidade de negociação de valores. Se é urgente, o valor é mais alto, por exemplo. Óbvio que pessoas com avaliações ruins não conseguem estabelecer relacionamentos profissionais, então isso obriga as pessoas a serem cordiais, gentis e corretas com as outras, sob pena de banimento ou conseguir apenas contatos tão irresponsáveis quanto.

Tendo o controle da vida profissional, é muito fácil também se valorizar mais. Não existe comparação com colegas de trabalho, nem assédio moral nem cobrança a fazer mais do que é exigido com a ilusão de um possível benefício. Não existe a ansiedade de uma demissão iminente, de uma instabilidade de mercado ou de estar à mercê do humor de um superior direto. É poder respirar fundo, dar uma volta, fazer um chá, assistir uma bobagem, dar um tempo quando estiver precisando sem a culpa de estar “morcegando” e sem olhares julgadores de reprovação. É receber pelo serviço que você presta, ter feedback imediato, justo e sincero e ser recompensado e remunerado pela sua mão de obra. É um processo linear, descomplicado e cristalino.

Fazendo a conta, sobra tempo pra lidar com as próprias inseguranças, trabalhar o lado emocional, viver um pouco mais leve sem ficar na dúvida se você é um bom profissional ou não. Isso já dá pra saber muito rápido. É, basicamente, a mesma coisa que numa empresa física: tarefa e mão de obra, conclusão e pagamento. Mas sem chefe e com o efetivo poder de escolha. Isso, pelo meu ponto de vista pessoal, não tem preço.

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